Hamilton e Verstappen chegaram empatados à decisão de Abu Dhabi, e uma volta final virou a temporada de cabeça para baixo.
A última volta começa antes de os carros voltarem a acelerar. Hamilton lidera, Verstappen está logo atrás, e entre os dois há pneus com histórias diferentes: os de Hamilton já somam 44 voltas; os de Verstappen são novos e macios. O campeonato inteiro se estreita até caber naquele espaço curto, numa pista de Abu Dhabi.
Uma temporada em rota de colisão
Em 2021, Hamilton e Verstappen transformaram a disputa pelo título numa rivalidade que atravessou o calendário. Em Silverstone, os dois se chocaram em alta velocidade, e Verstappen foi levado ao hospital. Em Monza, o carro de Verstappen subiu sobre o de Hamilton; o halo protegeu a cabeça do piloto da Mercedes. Na Arábia Saudita, uma semana antes da final, houve novo toque, punições e acusações dos dois lados.
No dia 12 de dezembro, os rivais chegaram a Abu Dhabi empatados: 369,5 pontos cada. Verstappen, aos 24 anos, perseguia seu primeiro título. Hamilton buscava o oitavo, uma marca inédita entre os pilotos. Havia ainda uma regra cruel na conta: se os dois terminassem sem pontuar, Verstappen seria campeão por ter vencido mais corridas na temporada.
Hamilton saiu melhor da largada e assumiu a ponta. Na curva seis, Verstappen tentou passar por dentro. Hamilton saiu da pista, cortou a chicane e voltou à frente. A Red Bull pediu que ele devolvesse a posição, mas os comissários não investigaram o lance. Depois disso, Hamilton abriu vantagem. A equipe de Verstappen tentou reduzir a distância com Sergio Pérez, que ainda não havia parado. Pérez segurou Hamilton por quase uma volta, e a diferença caiu. Hamilton, porém, voltou a escapar.
A corrida muda de ritmo
Um safety car virtual na volta 36 abriu uma oportunidade para a Red Bull. Verstappen colocou pneus novos; Hamilton permaneceu na pista. A troca não bastou para inverter o ritmo. Na volta 52, Hamilton tinha quase 12 segundos de vantagem. O oitavo título parecia ao alcance.
Então Nicholas Latifi bateu na volta 53, e o safety car entrou. Verstappen foi aos boxes e colocou pneus macios novos. Hamilton ficou na pista: parar significaria ceder a liderança. O safety car juntou os carros e apagou a vantagem que Hamilton havia construído. Cinco retardatários separavam os dois. A direção de prova anunciou que eles não ultrapassariam; depois, apenas os cinco carros entre Hamilton e Verstappen receberam autorização para passar.
A decisão veio no fim da volta 57. O safety car entrou nos boxes, e os rivais ficaram frente a frente para a última volta: Hamilton em pneus muito usados, Verstappen em macios novos. Na curva cinco, Verstappen ultrapassou Hamilton. Venceu a corrida e conquistou o campeonato.
O resultado e a marca que ficou
A Mercedes apresentou dois protestos naquela noite e perdeu ambos. A equipe argumentou que, sob o Artigo 48.12, todos os retardatários deveriam ter passado e que o safety car deveria ter retornado aos boxes apenas no fim da volta seguinte. Na leitura da Mercedes, o procedimento correto deixaria Hamilton à frente e lhe daria a vitória e o título.
Em fevereiro, Michael Masi perdeu o cargo de diretor de prova. Em março, um relatório da FIA apontou erro humano, mas manteve o resultado. Hamilton cumprimentou Verstappen depois de sair do carro. Mais tarde, Verstappen iniciou uma sequência de quatro títulos seguidos. Para Hamilton, o oitavo título ficou a uma volta de distância. A decisão de Abu Dhabi não encerrou a discussão sobre aquela noite; transformou uma última volta em uma das imagens mais marcantes da Fórmula 1.